O ESTRANHO
Uma estória empolgante. Visite diariamente, e leia! Gente, diferente do George Lucas, nossa estória começa da "parte 1". Use o menu ao lado! - BY L&M SUSPENSES LTDA.- COPYRIGHT. 2005 -
Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005
Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
Parte 11 - O devaneio
- EU QUERO UMA RESPOSTA! – gritou, soluçando. – EU EXIJO UMA RESPOSTA!
Joe chorava. Chorava como um menino quando pela primeira vez se deparou com o seu brinquedo favorito estilhaçado. Chorava por ver Maissa do modo como se encontrava, e pelo o receio de que tudo tinha uma forte ligação consigo, e com as aparições que o perseguiam. Com os dedos molhados pelas lágrimas, desenhou no chão “tabuleiro” do quarto uma cruz. Joe gostava de cruzes, principalmente pela carga enérgica que um símbolo tão pueril trazia consigo. A dor. O desprezo. A angústia. Sentimentos esses que, contrabalançavam a alegoria circunscrita de “Fé”. Aos poucos recobrou o fôlego, e levantou-se. Observou Maissa por alguns instantes, e deslumbrou-se com o vazio que sustentava sua mente. Saiu do quarto atordoado, e não conseguiu esconder o desprezo pelas luzes fluorescentes do corredor do hospital. Pôde sentir os apelos fisiológicos de seu corpo. Seria o momento excelente para sorver uma xícara de café.
Na cantina do hospital, o rapaz pôde perceber claramente o entusiasmo da balconista ao avista-lo. Joe pressentiu que não estava com ânimos condizentes, e tinha consciência que a última coisa que poderia fazer naquele instante era mostrar-se indiferente a uma fã. Mesmo que tivesse a imensa vontade de dar a volta e sumir daquele local.
- Eu não acredito! Joe Becker?! O que o traz ao hospital? – perguntou a menina, contorcendo-se atrás do balcão.
- Olá – disfarçou Joe sorrindo. – Estou visitando... – pensou por um segundo e, na tentativa de evitar especulações resolveu afirmar: - ... visitando uma amiga.
- É mesmo? Que maravilha encontra-lo aqui! – exasperou a balconista, revirando os olhos. – Sabia que, pessoalmente, você é muito mais bonito? – disse a garota, empinando o tórax sobre o balcão.
Se tinha coisa que Joe não estava a fim de aturar naquele momento seria um flerte. Admitia que seus sentidos másculos estavam obstruídos, e com pura razão. Tentou ignorar o comentário, sorrindo novamente.
- Por favor, quero um capuccino.
- Só isso mesmo?
- Sim. Por favor.
- E esse capuccino, pode vir acompanhado com o meu telefone?
- HAHAHAHA... – respondeu Joe, automaticamente, como se fosse um robô. As circunstâncias realmente não se mostravam propícias para paqueras, e, considerando sua impaciência, nada iria faze-lo mudar de idéia: aquela garota estava o irritando.
- Tudo bem Joe, aqui está. Essa sua amiguinha, está passando muito mal? – perguntou a garota, com uma pitada de ironia na ponta da língua.
Joe pegou a xícara do balcão arrastando-a até a extremidade oposta, e acenou para a garota com a cabeça, no que se poderia chamar de um “você não sabe o que diz”.
Sentou-se à mesa mais distante possível do balcão de atendimento, e contemplou pensativo o local. Não havia muitas pessoas desfrutando de expressões faciais felizes. Todos pareciam tristes. Amargurados. Todos tinham os ouvidos sangrando, os olhos vermelhos púrpura, lábios arroxeados e escoriações ao longo do corpo. Um médico o qual se localizava próximo de Joe, virou-se para ele em um sobressalto, e agarrou-se ao seu braço, ajoelhando-se, balbuciando palavras das quais Joe não podia identificar. Na extremidade esquerda do balcão onde a moça petulante atendia, Joe pôde identificar O Estranho novamente. Ele estava imóvel, de costas para o tumulto que se seguia, e mesmo sem presenciar suas feições diabólicas, Joe pôde configurar mentalmente o que o bizarro poderia estar pensando. Levantou-se rapidamente, na tentativa de poder agarra-lo e indaga-lo sobre o que estava acontecendo, porém durante o percurso de sua mesa até onde O Estranho estava, Joe permitiu-se se postar paralisado no meio do trajeto. Suas pernas estavam pesando toneladas, e quanto maior o impulso diferido e o esforço que fazia para move-las, maior erra o jorro de sangue que escorria afora de seus lábios. Deteve-se a ficar imóvel, assistindo ao Estranho virar-se e aplaudi-lo burlescamente...
- Joe Becker?! Acorde! Joe Becker?!... Eu não sei o que aconteceu, ele me pediu um café e minutos depois quando avistei-lo novamente, ele estava deitado, assim... desse modo sobre a mesa. Veja, até derramou seu café por tudo!
Joe ouvia difusamente um conjunto se fonemas que aos poucos foram formulando-se em palavras. Era a voz da balconista. Abriu os olhos lentamente, e aturdido, olhou a sua volta, constatando que tudo estava sobre controle. um médico o observava espantado, aguardando por uma possível recuperação. De modo a testar a sanidade do jovem ensopado do que parecia ser café, o médico de plantão proferiu a seguinte questão:
- Olá meu rapaz. Sabe me dizer qual é o seu nome?
Joe desviou o olhar para esquerda, prendendo-o em algum ponto fixo.
Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
Parte 10 - A imagem
- Maissa! Maissa! Meu deus! - Joe estava ficando desesperado - Mãe! Vem cá, rapido! - Em menos de quinze segundos a mãe de Joe já estava segurando a mão de Maissa e tentando reanima-la.
- Jonathan, meu deus! As orelhas, dela... Meu deus, estão sangrando! - E era a pura verdade. Um caminho ralo de sangue saia das entranhas da linda Maissa. Joe não entendia. Veio a imagem na sua cabeça do vizinho de cima. Segundo o porteiro de seu prédio, o mesmo havia acontecido com ele na noite passada.
- Joe, ligue para uma ambulância, agora!
Joe levantou rapidamente e foi correndo para o telefone.
- Hospital municipal. Boa tarde. - disse uma voz calma do outro lado do maldito telefone
- Meus deus, moça. Corte as saudações. Minha namorada está passando mal! Mande uma ambulância agora, por favor!
Joe começou então a passar o endereço de sua casa e de repente lembrou que se referiu a Maissa como namorada. Mesmo estando a algumas horas com ela, o seu sentimento era grande. Talvez pela lembrança de quando estava no colégio, ou algo assim. Mesmo enfrentando aquela situação horrivel, esboçou um sorriso.
- A ambulância já está se dirigindo ao local, senhor.
Os enfermeiros adentraram a casa de Joe e retiraram calmamente Maissa. Nem parecia que ela estava sofrendo um ataque. Joe fez questão de acompanhar Maissa.
Algumas horas depois, o famoso cantor já havia sido assediado por pelo menos duas enfermeiras e três pacientes, mas sua cara de preocupação era enorme. Estava nítido que ele estava realmente abalado pela possibilidade remota de Maissa ficar em coma. Ou pior. De repente uma cara conhecida passava pelo hospital. Era o mesmo médico da noite anterior, quando ela havia batido a cabeça. E por coincidência, era o mesmo médio que estava cuidando dela naquele momento.
- Doutor - Joe queria e não queria fazer essa pergunta. Tomou coragem e falou lentamente. - Ela vai ficar boa? Digo, vai se curar?
O médico abriu um sorriso e disse:
- Sim. A causa desse ataque não foi dectada. Porêm ela ficará aqui em observação. Três outras pessoas morreram com os mesmo sintomas em menos de 24 horas.- Joe simplismente apagou todas as outras palavras que sucederam ao sim e já se sentiu aliviado.
- Posso vê-la? - O médico fez que sim e acompanhou Jonathan até o quarto dela. Era um quarto grande, com uma vidraça reluzente que dava pra ver perfeitamente Maissa dormindo, calmamente. Com medo, ele preferiu ficar na porta, enquanto o médico já se dirigia a outro quarto. Joe começou então a imaginar o que ele faria se algo acontecesse a ela, e provavelmente por causa dela. Somente a presença dele fez com que Maissa começasse a se revirar na cama. Ele a olhava com muito carinho.
Mas de repente sua visão mudou de foco. Ele começou a observar atrás de sua imagem fraca no espelho uma outra imagem. Dessa vez tenebrosa. Um homem de óculos, sobre-tudo e muito palido. Era ele dinovo. Joe não sabia como, nem porque, mas era ele dinovo. Joe se voltou para trás, e como se era esperado, não havia ninguem ali. Mas ao retornar o olhar à imagem, lá estava ele dinovo.
- O que você quer? Me deixe em paz, ouviu?
A imagem daquele ser abriu um sorriso e desapareceu. As pernas de Joe tremeram e ele começou a pensar se aquilo era alguma maldição, ou apenas todos cigarros de maconha querendo tomar conta de sua mente permanentemente.
Terça-feira, Janeiro 25, 2005
Parte 9 - Um baque lento e surdo
Fixou o olhar no espelho, e paralisou-se, assistindo seus olhos enrubescerem em segundos.
- Não posso acreditar!- exclamou Joe, borrando o espelho na tentativa de livrar-se da sujeira que havia acabado de fazer. Estava contemplando a sua visão retorcida no espelho que agora se encontrava estilhaçado. Maissa, atenta ao estardalhaço, clamou por Rita, que subia as escadas com uma chave na mão.
- Tome isso, querida. Esta chave abre a porta do banheiro. A tenho de reserva no caso de uma eventualidade – exasperou a mãe de Joe, consternada.
- Obrigada – disse Maissa, aflita.
Maissa encaixou a chave grossa na fechadura, e sem ao menos girar a chave, a porta abriu-se mansamente.
- Desculpem.
- Joe, o que aconteceu com você! Sua testa está sangrando! Vamos logo fazer um curativo nisso meu filho!
Maissa encontrava-se presa à parede do corredor em frente ao banheiro como se fosse o quadro às suas costas. Não conseguia se mover. Suas pernas adormeceram instantaneamente ao presenciar a cena a sua frente. Refletiu aturdida, levou a mão à boca, limpou a lágrima que brotava do canto do olho esquerdo e com o maior assombro possível, dirigiu a mão esquerda a Joe.
- Venha aqui.
Joe deferiu um passo curto, cabisbaixo. Ainda não tivera coragem suficiente de direcionar o olhar a Maissa. Ela não poderia vê-lo daquele jeito. Se ele não entedia o por quê, como explicaria a ela?
- Maissa, não, por favor – proferiu Joe.
O momento nebuloso esmaeceu-se quando Rita apareceu, segurando uma pá de lixo em suas mãos forradas com uma luva plástica. Estendeu à garota uma bolsa com suprimentos de primeiros - socorros.
- Maissa, por favor, leve Joe para o quarto que eu cuido disso tudo.
- Tudo bem, Sra. Rita.
Maissa segurou o braço nu de Joe, e conduziu-o ao quarto. Enquanto percorriam o corredor, nenhuma palavra ousou ser discorrida. Joe ainda cabisbaixo sentou-se na cama, como se toda a gravidade conspirasse contra sua nuca. Maissa ergueu o rosto de Joe suavemente, afastando o maço de cabelos ensopado de sangue. Caminhou até o banheiro e umedeceu o pano que se encontrava na bolsa de primeiros – socorros. Retornou ao lado de Joe, que insistia em manter os olhos fechados, - ora por vergonha, ora por medo – e passou o pano suavemente pelo corte na testa.
- Ai! – exclamou Maissa, na tentativa de quebrar o ar gélido que permeava. – Me avise quando doer.
Joe continuava calado. Sentia uma imensa vontade de gritar, e uma fúria incessante o dominava, como se estivesse com as mãos atadas sendo apunhalado lentamente, sem nenhuma chance de reagir. Tudo estava confuso. Estava mais que confuso, e sim absurdo. Embora tudo estivesse ocorrendo particularmente com ele, Joe não encontrava um possível discernimento, muito menos uma remota solução. Tinha a leve sensação de que veria aqueles olhos azuis – antes tão vivos e vigorosos, naquele instante eram como as águas turvas do oceano, sem definição – pela última vez.
- Tem algo que você queira me contar Joe? – indagou Maissa, calmamente, abrindo um pacote de gases.
- Eu não sei o que está acontecendo. Estou me sentindo estranho.
- Olhe pra mim agora, Joe.
Joe relutou ao máximo fixar os olhos na garota. De algum modo, sentia que podia prejudica-la, e isso o injuriava.
- Joe, olhe pra mim, por favor!- gritou Maissa, desesperada. – O que está acontecendo? Assim não posso aplicar o curativo!
Joe suspendeu a cabeça lentamente. Maissa riu baixinho.
- Está bem, agora abra os olhos.
Joe pôde sentir os lábios quentes de Maissa tocando os seus. Naquele instante, uma terrível vontade de chorar o assolara. Engoliu em seco diversas vezes. Abriu os olhos lentamente, com a intenção de contemplar aquele momento, e compartilhar seu ardor com a garota. Encontrou os olhos de Maissa.
- AAHH!- Maissa berrou. Levou as mãos à cabeça e caiu, em um baque lento e surdo.
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
Parte 8 - O reflexo no espelho
- Mãe. Fecha isso, por favor. - Uma rapida olhada no relógio, uma careta de desaprovação e um pedido:
- Fecha mãe. Fecha logo.
- Maissa, acorde logo. Seu pai está furioso. Se eu fosse você, não pensaria duas vezes em vestir seu roupão e ir falar com ele na sala. Ele a espera. Agora vamos, estou sem paciência para você hoje. - Meu deus! Será que ele descobriu? estou frita! Mais que depressa, ela saltou da cama e se vestiu. Tentou pensar rapidamente em um mini-discurso para falar como ela voltara tão cedo da casa de sua amiga ou algo do gênero. Pensou até em, pela primeira vez, desacatar seu pai. Ela já era adulta e vacinada. Isso basta.. Ela bateu a porta do quarto e já ouviu um forte grito, como se seu pai estivesse com um megafone a 10 centimetros de sua orelha.
- MAISSAAA! VENHA JÁ AQUI. - Ela baixou a cabeça e se dirigiu a sala. Seu pai estava na posição padrão de domingo. Vestia pijamas, com seu chinelo estrategicamente ao lado do sofá, com os pés em cima de um pequeno puff e lia seu jornal preferido. Sem ao menos baixar o que estava lendo, ele começou a falar:
- Me ligaram do hospital municipal. Falaram que você esteve lá ontem a noite. E acompanhada de seu namorado. Um rapaz com longos cabelos negros e com os olhos marejados. Um tal de Jonathan. - Ele abaixo o jornal calmamente, dobra-o cuidadosamente, pois os óculos para leitura no criado mudo a sua direita e fala:
- Você está revendo aquele vagabundo do Joe NOVAMENTE? - então desatinou a gritar - QUANTAS VEZES EU JÁ LHE DISSE PARA NÃO ANDAR COM AQUELE MACONHEIRO? EU JÁ TE DEI UMA SURRA POR ISSO, AGORA VOU TE DAR OUTRA. - Ele tirou então um cinto de trás da almofada, como se ele já tivesse planejado essa cena, levantou-se e puxou Maissa pelo braço, colocando-a em seu colo. Do lado, sua mulher estava como testemunha ocular, sem mover um músculo.
- Para, pai. PARA! - O sangue fervilhava. Lembranças de tempos remotos brotavam na sua mente como um aviso. Ela rolou para o lado, caindo no chão. Chorando, praticamente paralisada, mas como se algo a dominasse, ela deu um tapa no rosto do pai, e saiu correndo para o seu quarto.
Maldito. Foi a ultima vez que isso aconteceu. Juro por deus.
Ela pegou a chave do carro e fugiu pela janela, como já fizera tantas vezes antes. Como eu queria que esse ditador estivesse morto. Eu o ODEIO.
Enquanto isso, Joe estava acordando com uma bandeija de café da manhã super recheada. Sua mãe abriu um tremendo sorriso e mal conseguiu falar.
- Que bom que durmiu em casa! Que visita maravilhosa! - Joe saiu da cama e deu abraço na mãe.
- Não queria te acordar mãe. Desculpe.
- Tudo bem, Jonathan. Coma e vá a sala, para conversarmos.
- Tudo bem, mãe. Já estou indo.
Em menos de 10 minutos, Joe já estava se arrumando, quando sua mãe bateu três vezes na porta, gritando: Joe! Maissa está aqui! Quer lhe falar!
Joe não se conteve de felicidade, mas como era vaidoso, não deixou de dar uma passada no banheiro, para pelo menos ver se seu cabelo estava em ordem. Ele olhou para o espelho e começou a se contemplar. Mas ele começou a notar que seu olhar mudava lentamente. Estava ficando com um tom avermelhado. Logo, Joe não podia ver mais nada, a não ser seus olhos refletidos no banheiro. Era como se ele estivesse num palco. Luz sobre sua face e mais nada. E ele estava vendo isso. Logo, sua face tambem estava mudando. Em vez daquele rosto invejável, estava se tornando num rosto seco, sem graça, branco como a neve, e seu cabelo estava diminuindo. Claro que Joe captou o que estava se passando. Ele era o estranho, ali, naquele banheiro. Não se conteve e exclamou, com um olhar sério e uma fúria bruta.
- O QUE QUER? O QUE QUER DE MIM - É claro que perguntar para um reflexo era loucura. E Joe sabia isso, mas não aguentava mais ver aquele homem aonde quer que fosse. Mas como se fosse um sonho, a imagem respondeu, com uma gargalhada istridente.
- Olhe dentro de você, Joe!
A conversa poderia ter continuado, se não fosse Maissa batendo na porta.
- Joe? Jonathan? Alguma coisa está ocorrendo ai dentro?
Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
Parte 7 - As gotas
Joe afastou os lençóis e dirigiu-se para a sacada, a fim de inalar o ar fresco matinal. Enquanto o cérebro custava para organizar as lembranças e enviar corretamente os impulsos nervosos, Joe debruçou-se no parapeito, e fechando os olhos, pôde sentir o sol acariciar seu rosto. Meneou a cabeça por diversas vezes. O que estava acontecendo? Que espécie de perseguição seria aquela? Um maníaco ilusionista talvez? Seriam os efeitos das drogas que insistiam em afetar seus neurônios? Um pingo do que parecia sangue caíra sobre o parapeito. Joe examinou-se nervosamente, não verificando nada de incomum. Novamente, outra gota estatela-se a dois centímetros do lugar anterior. Joe esbraveja um suspiro impaciente. Olhou para cima e notou que as gotas provinham de um cano de escoamento de água, comum nas sacadas dos prédios, pois quando chove, o acúmulo é eliminado por esse recurso. Enquanto Joe realizava o que poderia estar acontecendo, outra gota cai, porém agora o atingindo na cabeça. Por mais que a inércia o dominasse, algo precisava ser feito. Joe ouviu o que pareciam ser sirenes de ambulância aproximando-se do hotel. Dirigiu-se para a mesa de cabeceira e discou o número que chamava a atendente da recepção.
- Bom dia, em que posso ajudá-lo?
- Bom dia, aqui é Jonathan Becker, do 603. Está tudo bem ? Eu estou ouvindo uma sirene de ambulância.
- Desculpe-nos o transtorno, Sr. Becker. Na verdade, um hóspede acaba de ser removido. Ele foi encontrado inconsciente por uma de nossas camareiras.
- Ele estava aonde?
- Estava na sacada de seu dormitório. A equipe médica não apurou nada ainda. O mais estranho, é que brotava sangue de seus ouvidos. O senhor provavelmente deve ter notado algo, pois a pessoa estava no andar superior ao que o senhor se encontra.
Joe pigarreou lentamente. Com a voz embargada, afirmou:
- Não vi, nem ouvi nada. Acordei-me agora, com o barulho incessante da ambulância. Espero que da próxima vez que chamarem por uma, peçam que desliguem a sirene quando estiverem se aproximando de um local de repouso, considerando o horário.
- Perdoe-nos novamente, isso não voltará a acontecer.
Joe pôs o telefone no gancho, não podendo conter a sucessão de espasmos nervosos que atingiam suas mãos naquele instante. Engoliu em seco uma vez. E outra. Fixara olhar em um local seguro dentro do quarto do hotel e daquele modo permaneceria... Pelo menos durante as três horas seguintes.
Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
Parte 6 - Corpos desaparecem
Um homem alto. Alto o bastante para chegar a metade da alta pilastra que segurava o teto daquele último andar. Vestia um sobre-tudo preto colado no corpo, uma bota de exército de cor igualmente fúnebre e óculos negros como a noite. Essa a visão que Maissa teve, depois de dar um carinhoso beijo em Joe.
- Parceiro, se eu fosse você, eu dava o fora.
- Calma Joe! - interceptou Maissa, com seu jeito cativante - É apenas algum maluco da cidade. Deixa pra lá.
No mesmo momento, Jonathan engatou a marcha e acelerou com tudo aquele lindo carro. Maissa pensava que ele estava agressivo e queria partir pra cima do tal estranho.
- Eu já vi esse babaca no meu show hoje a noite! - ele colocou uma ênfase naquele pronome possessivo que parecia que ele tinha tocado todos instrumentos sosinho. - Ele deve estar me provocando, não sei porque!
O medo que Maissa sentira passou. Joe não estava indo em direção ao estranho, e sim para o lado oposto. O carro então desceu as rampas circulares com uma velocidade muito acima da permitida. Quando chegou ao nível da rua, Joe acelerou bruscamente o carro, fazendo com que sua potência levantasse uma imensa nuvem branca Joe só teve tempo de olhar no retrovisor e ver aquele ser macabro, com olhos vermelho-sangue, dentre a nuvem densa de fumaça.
- Mas que diabos!? - Ele indagou. - Como pode ser tão rapido?
Maissa tentou olhar no retrovisor, olhou para trás, mechendo a cabeça de um lado para o outro, mas nada pode ver. Apenas a mesma nuvem. Acho que Joe bebeu muito mais do que eu pensei. Por um momento essa triste constatação poderia ser valida. Se fosse isso, era apenas ela tomar o volante que tudo ficaria bem. Mas Joe havia apenas bebido um copo de vodka no camarim, e nem tinha tragado naquele baseado. Joe suava muito para aquelas condições climáticas em que se encontravam. Maissa estava ficando realmente preocupada. Ele estava atônito, olhando para todos os cantos da rua. Estava muito ofegante e a cada cruzamento de vias, ele acelerava mais o carro.
- Calma, Joey! Vá com calma! - Num sopro de desespero, aquele apelido fez efeito sobre a mente perturbada de Joe. Ele olhara pro lado e abriu um sorriso, enquanto diminuia as marchas do carro.
- Desculpe. Acho que vi coisas.
- Tudo bem. Mas não corra, por favor. - Mesmo com o carro em movimento, ele se inclinou pro lado dela e seus lábios se tocaram gentilmente. Joe voltou com os animos redobrados para a direção. Mas do outro lado da rua, encostado no poste, estava alguem muito branco. Ajustando as vistas, fazendo força com os olhos, Joe pode ver: era o mesmo cara.
Não pensou duas vezes, acelerou o carro como nunca e seguiu reto. Maissa não parava de berrar do seu lado, mas ele não conseguia prestar atenção nela. Estava confuso. Decidiu então fazer uma conversão a esquerda. Olhou para a direita, para ver se nenhum carro estava vindo, e, acreditem ou não, lá estava, em pé, a mesma figura horripilante. Joe não podia acreditar, Ele apenas berrava a cada aparição daquela "coisa". Maissa não entendia. Pois ela não via nada (ou não queria ver).
- MEU DEUS - Joe berrava - O QUE ELE QUER DE MIM?
- calma Joe! CALMA! - Todos afagos e tentativas eram em vão. Joe estava indo tão rapido que o potente motor estava dando sinais de cansaço. A cada esquina, a figura se repetia, como se ele se teletransportasse, ou fosse alguma brincadeira de mau gosto. O cerébro de Joe entrara em colapso. Imagens daquele dia estavam rodando sua cabeça. Desde a imagem de Ed o acordando, ao reencontro com maissa. Essas lembranças só foram cortadas quando Joe ouviu um forte grito:
- CUIDADO JONATHAN! CUIDADO!.
Tarde demais. O carro havia atropelado alguma coisa. Essa coisa ainda havia batido no teto e rolado pela traseira, até se encontrar com o asfalto gelado. Joe recuperou a consciência na hora e colocou todo o volante para esquerda, enquanto pisava no freio. A cabeça de Maissa bateu na porta, com força. Parada total.
- De..de...de...me deculpe! Oh, meu deus, me desculpe! Você está bem? - o desespero dele era notável.
- Acho que sim. Só estou confusa. - A voz de Maissa estava mole, fraca. - No que será que batemos?
- Não faço idéia. Vou olhar.
Joe abriu a porta do carro, ainda meio zonso. Olhou para o lado e viu que o motor estava soltando muita fumaça. Droga. nem é meu carro! Foi andando lentamente ao meio da rua, onde estava um corpo. O corpo vestia preto, totalmente. Desde suas botas a um sobre-tudo colado no corpo, e um óculos, a alguns metro do corpo, todo quebrado.
- Meu deus! É o mesmo cara! É o mesmo estranho! Como isso? - Neste momento, ele colocou suas duas mãos na cabeça, em sinal de desespero. Pensou que ele podia estar morto, e se dar muito mal por isso. Deu mais uma olhadela no corpo o notou que a pele branca estava ficando roxa. Estava morto, com certeza. Olhou para trás, e viu que Maissa estava dentro do carro, com a mão na boca. A batida deve ter sido forte. Ela está toda tonta, coitada. Não tinham mais o que fazer, a não ser constatar o estado do atropelado.
Joe se curvou em frente ao corpo, perplexo, com uma mão no rosto e a outra segurando seu enorme cabelo. Parou por segundos, pensando no que ele faria caso fosse acusado de homicídio. Tomou coragem e girou o corpo. Pois os dedos em sua jugular e apenas aconteceu o que ele temia: Não havia o menor sinal de pulso. Lágrimas correram pela bochecha branca de Joe. Ele olhou pra baixo, em sinal de desespero, e olhou para trás, para ver se Maissa tinha saido do carro. Mas algo estranho aconteceu.
Quando ele voltou a olhar o corpo, teve uma surpresa.
- Mas.. mas como isso!?
No lugar do corpo, estava apenas um sobre-tudo preto, impecável. Parecia estar passado. Logo abaixo, havia um par de botas deitadas no chão, e mais pra frente havia um par de óculos, intácto, com a lente novinha, e limpa. O corpo parecia ter desaparcido. Aquilo era muito pra pobre cabeça drogada de Joe. Como um corpo desaparece tão rapido?
- IMPOSSIVEL! - ele gritou, mas após segundos de reflexões, ele constatou: sem corpo, sem crime.
Rapidamente ele se levantou e correu para o carro.
- Maissa. não batemos em nada, não tem nada lá atrás. - Achando que ele estava mentindo, Maissa olhou pelo retrovisor pra ver se tinha alguma coisa. Conseguiu ver algo que pareciam botas, só isso.
-Atropelei um par de botas! - disse Joe rindo da própria ignorância, tentando amenizar o clima dele com ela, afinal, ele fora o culpado dela ter batido a cabeça na porta.
- Vou te levar pro hospital, Má! - Ela fez que sim com a cabeça, e eles começou a andar lentamente pela rua deserta.
Decidiu olhar pelo retrovidor para ter certeza que o corpo não estava lá. E não estava. Estava totalmente aliviado, tão à vontade que resolveu olhar no espelho para ver sua aparência. Não podia chegar com sinais de drogas ou bebidas em um hospital
Joe virou totalmente o espelinho superior do carro, enquanto Maissa estava de olhos fechados ao seu lado. Ele notou que sua aparência estava condinzente à ocasião. Mas algo mudará. Seu olhar, que era tenro e "gentil", agora estava agressivo. Mais do que isso. Reluzia uma cor forte. Vermelho-sangue, para ser mais exato.


